Cento e um

05Mai08

De forma sorrateira, devagarinho, o N101 vai marcando pontos e faz, cada vez mais, parte do circuito nacional de espaços ditos alternativos às grandes salas, ou pequenos espaços para concertos.

O cartaz de Abril foi francamente imbatível. Destaco três concertos não porque os outros tivessem sido maus, pelo contrário, mas porque me disseram mais, porque foram mais do meu gosto, porque a música das respectivas bandas tem vais a ver comigo e porque, obviamente, não temos que gostar de tudo. Hipnótica, Tiago Bettencourt e Dapunksportif.

Dos primeiros, que tocaram com os Loto na mesma noite no N101, já venho acompanhando o trajecto há algum tempo. Com um percurso muito discreto, desde que ouvi na rádio “She’s Afraid” e depois os fui conhecer melhor que guardei a opinião de serem um dos projectos mais interessantes no quadrante da uma música electrónica, ambiental, experimental.

De Tiago Bettencourt devo dizer que nunca tinha prestado grande atenção ao seu percurso. Não sei porquê exactamente. Talvez por “A Carta” ter preenchido demasiado espaço e saturado, abafado todo o restante trabalho do Tiago Bettencourt, que tem dois discos com os Toranja e agora um outro juntamente com os Mantha.

Ao vivo, Bettencourt revelou-se uma verdadeira surpresa. Nestes espaços pequenos, músicos e público são quase uma coisa só. Tiago Bettencourt teve espaço para si, um piano e várias guitarras. Os textos seus e de outros (Dylan, Beatles, Bowie, Jorge Palma) entraram-me pelos ouvidos dentro. A capacidade de escrita em português é simplesmente notória. Capacidade que apenas conhecia assim em Jorge Palma. Histórias dele, mas também minhas ou de qualquer outro mortal.

Tiago Bettencourt revelou-se também um notável performer através da interacção com o público (lá está a tal proximidade) ou através das brincadeiras que ia mantendo com um estranho pedal de guitarra.

Finalmente, os Dapunksportif (na foto). Rock escorreito. Fez lembrar-me de Foo Fighters, grande baterista. Disco novo, músicas novas. Boas músicas novas acrescente-se. Mais uma vez a capacidade de chegar ao público fez a diferença para uma concerto numa grande sala ou num festival. Tocaram pouco porque começaram tarde, porque o baterista atrasou-se.

A coisa não fica por aqui. O cartaz de Maio já é conhecido. Dead Combo abriu o mês em grande com outro concerto fantástico. Million Dollar Lips, Sandy Kilpatrick e Bunnyranch prometem outra dose de grandes concertos.

No fim de tudo pergunto-me como é possível construir ou ir construindo uma casa deste género que, para todos os efeitos, faz oferta cultural e por conseguinte serviço público, assente numa iniciativa privada e mantendo-a sustentada. Ao mesmo tempo que se ouvem notícias de verdadeiros sacos sem fundo (leia-se insustentáveis), onde as autarquias injectam dinheiro de forma indiscriminada, dinheiro que parece, nunca chega.



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