Homens vazios
Somos homens vazios
Somos homens completos
Vergamos em conjunto
Com cabeças cheias de palha.
As nossas vozes secas, quando
Sussurramos juntos
São calmas e sem significado (…)
“The Hollow Man”, T.S. Eliot (tradução livre)
Diria que estamos a atravessar um tempo de esvaziamento de ideias. Parece que não há nada a acrescentar àquilo que conhecemos. Não há novidades, tudo é previsível. No plano individual, à medida que nos tornamos cada vez mais egoístas, a economia mundial torna-se cada vez mais globalizada. Este antagonismo, só por si, pode trazer vários riscos: a delapidação da nossa capacidade de resposta e das nossas defesas face a adversidades; a manipulação dos indivíduos, cada vez mais fracos e a formatação das sociedades.
Conversava há uns dias com uns amigos. Discutíamos aquilo que cada entendia estar bem ou mal nas Caldas das Taipas. A conversa rondou por vários tópicos, sendo que as conclusões eram sempre uma de duas: ou o que se faz na vila devia ser feito de outra forma; ou que “nas Taipas não há nada”, “não se passa nada de realmente interessante”. Chegamos à conclusão de que somos uma terra que se esvazia de dia para dia. Não vale a pena voltar com a história daquilo que já foi Caldas das Taipas, porque já começa a ser muita falta de imaginação.
Que valores teremos nós? O problema tornou-se mais bicudo quando nos perguntamos: o que é que se podia fazer nas Taipas? Será possível fazer algo de novo e surpreendente? É curioso que apenas nos habituamos a discutir aquilo que se faz nas Taipas (que alguém se atreve a fazer) e nunca ou raramente o que não se faz ou que se poderia fazer.
Por estes dias discute-se uma obra de construção de passeios que o presidente da Junta de Freguesia mandou fazer na Rua de Santa Marta. O presidente Constantino Veiga foi eleito pelo PSD, mas aquela obra poderia muito bem ter sido feita pelo PS. Mas não é por isso que não se poupam críticas àquilo que se fez. Falta de imaginação mais uma vez. Cai-se no ridículo de discutir a largura e a altura dos passeios. E só aqui vejo alguém reclamar por um passeio para peões ter substituído lugares para estacionamento numa rua/ estrada com aquelas características.
Por outro lado, de quatro projectos (ou se calhar quatro propostas de projecto) que o mesmo presidente da Junta apresentou há uns meses, faz-se um silêncio sepulcral. Desperdiça-se tempo. As deixas lançadas por Constantino Veiga bem poderiam servir de pretexto para pensar na vila e na freguesia que temos. O que queremos? Quais as nossas expectativas? O debate deveria ser rico e apaixonado da mesma forma que o é quando se trata de aproveitar os falhanços dos outros. Em Guimarães a estratégia resultou, as pessoas saíram de casa e fizeram saber que cidade queriam e sobretudo que cidade não querem. Nas Caldas das Taipas, não se passa nada. O que, mais uma vez, vem comprovar o vazio colectivo em que estamos todos mergulhados.
A polarização político-partidária é castradora. Parece um jogo de xadrez em que cada movimento é sempre analisado subversivamente pelo adversário. Somos todos e cada vez mais adversários uns dos outros. Desconfiamos uns dos outros. Tiram-se conclusões gratuitas sobre actos e afirmações de uns e outros. Catalogam-se as pessoas. No meio de tudo fica um vazio cada vez maior. Claustrofóbico. Isto precisa mesmo de mudar. Representantes e representados têm que fazer um exame de consciência e procurar a resposta para a pergunta: o que raio temos nós ganho com isto?
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