Quando ouvi o primeiro disco dos Portishead, Dummy de 1994, estranhei de sobremaneira aqueles loops de bateria sincopados, como se fosse um vinil a tocar abaixo da rotação normal. O som era denso e pouco polido. Os detalhes isoladamente eram simples mas faziam de cada canção um momento particular e enlevado. E a voz. Os sussurros de Beth Gibbons mergulhados em reverbs vintage e os seus textos negros. O disco viria a acompanhar-me durante largo tempo. Apresentar um som completamente inovador, que rompeu de forma profunda com os cânones vigentes em meados de 90s, foi um “golpe de asa” e talvez por isso Dummy foi um disco marcante.

Em 1998, vi os Portishead em concerto no Festival do Sudoeste (juntamente com PJ Harvey). Aquele foi e continua a ser um dos melhores concertos a que assisti até hoje (juntamente com o da PJ Harvey).

Passados catorze anos (!) os Portishead lançaram Third. Depois de um disco de continuidade que foi o homónimo Portishead, de 1997, o terceiro registo não traz nada de óbvio, isto é, não é um disco que mostre acomodamento. Procura inovar, depois de muitas outras formações terem explorado a sonoridade Portishead. A estranheza sonora voltou a instalar-se.

O disco começa em português com um magnífico Silence a quebrar definitivamente com o passado através de um ritmo acelerado e uniforme. Os músicos assumiram como desafio de partida para este disco a quebra com o passado – eles não queriam soar como uma cópia deles próprios. O single Machine Gun talvez seja, em todo o disco, o exemplo máximo dessa procura, fazendo com que Portishead se assemelhe com música industrial altamente vanguardista.

Third vive de um constante contraponto entre passado e presente. Se por um lado temos os já referidos Silence e Machine Gun e outros temas como We Carry On, que são manifestamente uma quebra relativamente àquilo que conhecemos da banda. Por outro lado, o disco dos Portishead, sendo surpreendente, vive muito daquilo do que a banda conquistou antes. Desde logo, porque se mantém a voz silenciosa de Beth Gibbons como elemento marcante deste projecto. Regressam os temas downtempo e os ambientes densos e soturnos (Hunter e Threads são temas clássicos de Portishead). O disco está repleto de excelentes composições como a belíssima The Rip.

Ou seja, sendo um passo em frente não deixa de ser um disco característico de Portishead o que, diga-se, é um aspecto positivo não fosse irrepreensível o trabalho anterior da banda. Imagino que se tivesse ouvido este disco há catorze anos, este ocuparia o mesmo lugar que ocupou Dummy na altura. Certo, certinho é que fará parte das listas dos melhores discos de 2008.

Este texto foi originalmente publicado no blog Upload, em 29 de Maio de 2008.



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