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Centro Cultural Vila Flor © Paulo Dumas

O Forum Guimarães, que decorreu na cidade, no fim-de-semana de 16 e 17 de Outubro, propunha-se trocar ideias acerca de como a Cultura pode contribuir para a transformação e para o desenvolvimento de cidades e regiões. O propósito é claro e decorre do facto de, em 2012, a cidade-berço ostentar o título de Capital Europeia da Cultura.

Dos exemplos passados, de processos que estão a decorrer e outros que ainda estarão, ficou claro que não existe um único modelo ou uma forma clara de fazer as coisas. Nem pode haver. Que similitudes poderão haver entre uma Capital Europeia da Cultura em Istambul (em 2010), uma cidade com 15 milhões de habitantes e outra em Guimarães, um concelho com 160 mil habitantes?

Destacaria três tópicos que foram alvo de discussão. Relativamente ao caso concreto de Guimarães, a discussão rondou muito sobre o modelo de desenvolvimento de todo o processo até 2012. Foi também discutido o pós-2012 e a “ressaca” que será o dia 1 de Janeiro de 2013. O termo foi empregue por Sir Bob Scott a propósito de Liverpool 2008, processo no qual esteve envolvido.

Um terceiro tópico de discussão esteve relacionado com a tensão existente entre a “continuidade” e a “criatividade”, ou seja, entre o tratamento e recuperação da História e do património, materializado nos centros históricos; e o estímulo à inovação criativa, que é em muitos casos condição para o “cosmopolitanismo” das cidades. Ou, como sintetizou José Bastos, director do CC Vila Flor: “a componente criativa de hoje [que] será a tradição de amanhã”.

Paul Scheffer, professor na Universidade de Amesterdão, fez aqui uma exposição eloquente quanto baste e preveniu que um e outro estão sob a ameaça da globalização que tende a normalizar o que é distintivo, pondo em perigo a diversidade cultural característica das cidades e dos lugares.

Quanto ao modelo de desenvolvimento daquilo que será a CEC2012, Guimarães foi desafiada a inovar, criando um modelo capaz de incluir todo o concelho e a região envolvente, recorrendo a “parcerias alargadas”.

Quem primeiro tocou neste ponto sensível foi Jean-Yves Durand, investigador no Centro em Rede de Investigação em Antropologia (CRIA) ao pressagiar o fracasso (failure) de Guimarães 2012 caso as freguesias não sejam envolvidas no processo. Isabel Fernandes, do Museu Alberto Sampaio, corroborou esta ideia.

Também presente na sala estava Álvaro Domingues, o geógrafo que na semana anterior tinha levado o presidente da Câmara de Guimarães aos píncaros ao afirmar no jornal Público que já havia muito quem olhasse para a cidade extraordinária e que era necessário olhar também para a cidade ordinária – este contínuo urbano disperso de limites indefinidos, que se estende ao longo das vias e que é no fundo a cidade onde vive a grande parte da população de Guimarães.

O saudoso arquitecto Fernando Távora costumava dizer que o Centro Histórico de Guimarães era uma pérola embrulhada num saco plástico, referindo-se ao restante território.

A vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Guimarães, Francisca Abreu, quis garantir que esse trabalho de desenvolvimento da Cultura tem sido feito nas freguesias. Mas nós que andamos cá sabemos que o que tem sido feito é muito pouco. Foi a própria que tropeçou nas suas próprias palavras ao querer referir exemplos neste âmbito: não foi capaz de ir além da reabilitação de duas igrejas em Pinheiro e Serzedelo e do tratamento de vários espaços públicos. Falta saber onde está a parte do estímulo à criatividade no meio disto tudo.

Este encontro que decorre numa altura crítica em que se avaliam recursos (materiais e imateriais), serviu para mostrar aos responsáveis autárquicos que a política cultural em Guimarães tem debilidades assinaladas que é preciso corrigir.

Concentrar meios num território tão densamente povoado como o nosso não tem reflexos fora da cidade. Guimarães apostou forte no Centro Cultural Vila Flor e ganhou claramente esse campeonato. Agora, é preciso descer à terra.

Já antes, aquando da apresentação do estudo sobre os públicos do CC Vila Flor se chegou a esta conclusão: a formação de públicos falha em Guimarães. Quem vem ao Vila Flor são os tais “outros” que fala Francisca Abreu e que vêm do Porto, de Braga e de outras cidades. Então e nós?

É ainda curioso perceber que, no mesmo estudo e no grupo relativo dos poucos que frequentam o CC Vila Flor com origem no concelho, há uma grande parte que vai da vila de Caldas das Taipas, o que não deixa de ser sintomático de alguma coisa. Valeria a pena pensar nisto…