Os vendilhões do templo

12Jan12

Foram tornadas públicas as estatísticas da Associação Fonográfica Portuguesa (AFP) que revelam mais uma vez e como seria de esperar que a indústria fonográfica clássica vende cada vez menos. Segundo Eduardo Simões presidente daquela entidade em declarações ao jornal i, a quebra foi de 38% no primeiro semestre de 2011, relativamente mesmo período do ano anterior. As causas apontadas, como não podia deixar de ser: a “pirataria” – essa coisa horrenda e indefinida transformada em bode-espiatório apenas porque é mais fácil.

Desde que o digital chegou ao mercado da música através do mp3, no início da década de 1990, nada viria a ser como antes. Houve toda uma evolução tecnológica que vinha já desde os 1980′s que transformou o nosso dia-a-dia de forma radical e com uma velocidade incrível. Essas transformações chegaram igualmente ao comércio da música. No entanto, a indústria discográfica parece que não se apercebeu disso e nada fez, ao ponto de hoje continuar a atribuir culpas a todos menos a ela própria. Não houve uma adaptação por parte da indústria discográfica perante aquelas transformações radicais de que quase todos deram conta.

A verdade é que a indústria discográfica nos dias de hoje não quer saber dos artistas para nada. Quer sim saber do que os artistas lhes podem trazer. Há uma realidade que é hoje inquestionável – a informação hoje corre sem que se consiga ter control. É assim nas mais diversas áreas, não só na música. No entanto, editoras e associações ditas de artistas e de protecção de direitos de autor continuam a querer tapar o sol com a peneira, em vez de procurarem novas formas de remunerar os artistas pelo seu trabalho.

Também os artistas, hoje, não precisam das editoras para nada. Cada vez mais, são os artistas que tomam a iniciativa de registar, publicar e distribuir o seus trabalhos pelos mais diversos canais utilizando… as novas tecnologias. Os próprios artistas tomas, eles próprios a iniciativa de crias as suas próprias editoras. Destes, os chamados independentes, as editoras não querem saber preferindo antes apostas em filões de valor artístico duvidoso. As editoras em vez de baixar o preços dos suportes físicos, continuam a mantê-los ao mesmo preço de há quinze anos, apesar de todas as facilidades tecnológicas e das economias de escala entretanto criadas. Insistem em apresentar-se como defensores dos artistas, mas continuam a ignorar os fundos de catálogo. Se há discos que não estão disponíveis, como o imenso catálogo de músicos portugueses, que alternativa há se não ir descarregá-los da internet?

A SPA, que além do papel de registo autoral não serve para coisa alguma, devia vir a público dizer quanto é que paga aos artistas não só pela venda de discos, mas pelos direitos dos concertos, inclusive aqueles que são cobrados por artistas que nem sequer estão registados naquela entidade. Também devia divulgar o comportamento das vendas a partir de plataformas online como o iTunes.

Sociedade Portuguesa de Autores, PassMúsica e editoras são uma cadeia composta por gente interesseira que da arte e da criação pouco querem saber. Se estas entidades não querem saber dos artistas e se os artistas já não precisam daquelas entidades, por que raio se insiste em mantê-las? Tozé Brito convenientemente ex-administrador da Universal em Portugal e actualmente da SPA exclama: “Não se vai poder viver a música como eu a vivi” – olha a novidade!



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