NACIONAL, OPINIÃO

Soares foi fixe. E fixe é aquilo que nos deixa

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Fotografia Jean Gaumy

A figura de Mário Soares é incontornável da História recente de Portugal e um ícone do que é, hoje, o Portugal moderno em que nos conseguimos tornar, com todas as contrariedades que fomos encontrando. A impressão com que fico, à medida que se repetem, na televisão, as imagens de arquivo, é que dificilmente me capacitarei que o corpo daquele homem, com aquela força e aquela vitalidade pode estar agora morta e inanimada. As imagens mais recentes de Soares já debilitado são engolidas pela força das outras, muitas, em foi protagonista.

Já se disse repetidamente que Portugal deve a Soares a liberdade, a democracia e integração europeia, que nem sempre foi fácil e que atravessa hoje um momento de vulnerabilidade, por vulnerável ser a situação económica de Portugal.

Por mim, além disso, agradeço a Mário Soares (assim como a Freitas do Amaral) o meu despertar do interesse pela política, para os problemas da sociedade, para a necessidade de compreender a História e acompanhar as decisões que vão determinar o seu curso no futuro.

Foi na altura da campanha presidencial, de 1986, precisamente por esta altura do ano, que opôs aqueles dois actores políticos, que os passei a admirar até hoje. Foi principalmente na segunda volta, que o grande duelo aconteceu. Para ser honesto, eu simpatizava com os dois candidatos (embora o meu pai apoiasse Amaral e eu, para o satisfazer, dizia que também gostava dele). A questão que então se me colocou foi sobre o que seria que dividia aqueles dois homens tão determinados e tão fortes, na defesa das suas ideias e que conseguiam mobilizar tanta gente?

Para mim, esta foi a questão basilar, que abriu uma série de outras questões e que me permitem, hoje, perceber, de forma mais clara, quais são as minhas convicções e aquilo em que acredito ser melhor, seja para o país, para a comunidade onde me insiro e, no limite, para mim próprio. Mais recentemente, fui lendo várias biografias e grandes entrevistas vertidas em livro e consolidei a ideia de que Mário Soares era de facto uma grande figura, da qual fui guardando enorme respeito.

Aquando do falecimento de Maria Barroso, em Julho de 2015, lembro-me de ter antevisto, para mim, que Soares lhe seguiria dentro de pouco tempo, tal era a ligação tão próxima e bonita que ambos tinham. Em Dezembro de 2016, Soares foi hospitalizado e na véspera de Natal entrou em coma profundo. Os jornais avançaram com obituários e pensei, novamente para mim, que a vida de Mário Soares tinha chegado ao fim.

Mário Soares foi fixe, antes de a coolness estar na moda. Foi alguém preocupado em defender o que entendia correcto, sem preocupações em agradar a todos. Por isso, teve momentos mais e menos populares. Teve decisões polémicas, com consequências que hoje sabemos que não foram as melhores. No entanto, nada lhe tira o papel de destaque que certamente irá ter na História de Portugal do último meio século.

Gostava sinceramente que o país estivesse à altura de perceber e enfrentar como nação os desafios que Mário Soares, por si, foi capaz de enfrentar, para que hoje possamos ter (com as suas virtualidades e fragilidades) integração europeia, liberdade e democracia. Obrigado Mário Soares.

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