OPINIÃO

Somos todos portugueses. Mas uns são mais portugueses do que outros

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Os portugueses, de uma maneira geral, sabem que vivem num país corrupto. A promiscuidade entre sociedades de advogados, banqueiros, políticos, clubes de futebol e outros é algo que é aceite de forma tácita e de que ninguém gosta muito de falar – ou porque adivinham que os tentáculos da corrupção em Portugal são um polvo complexo (que vai além daquilo que poderão perceber); ou por, de uma forma ou de outra, terem o rabo preso por um ou outro “favorzinho” que terão pedido.

A corrupção, tal como a crise (que vai tendo nomes diferentes de cinco em cinco anos), são factores endémicos, com os quais os portugueses se habituaram a viver e a consentir. É estranho que ninguém se tenha indignado em 2006, quando o então deputado João Cravinho quis apresentar um programa de combate à corrupção e foi manietado pelos partidos dominantes, sendo silenciado e enviado de repente para Londres. Recentemente Cravinho deu uma entrevista à revista Visão (o Público fez uma síntese da mesma, que poder ser lida aqui). A entrevista que José Azevedo Pereira deu à SIC Notícias também foi bastante reveladora e Elisabete Miranda fez a esse propósito uma reflexão interessante no Jornal de Negócios, que pode ser lida aqui.

Os casos de corrupção que vão sendo investigados (envolvendo muitas das vezes altos dirigentes de instituições públicas, privadas e partidárias), que chegam a julgamento em Portugal, adquirem facilmente uma aura romântica, digna das novelas literárias mais fatelas. O país está entre os mais permeáveis à corrupção e a infiltração desta nas nossas vidas é muitas vezes escudada por razões diversas, que justificam as crises, com as quais o país e os portugueses vão sucessivamente vivendo.

A ideologia já não convence ninguém. É obvio que a máquina partidária é que conta. Só assim se percebe que, por exemplo, apesar de afinidades ideológicas dos candidatos, os partidos dominantes tenham insistido em apresentar “os seus candidatos” para a eleição do Presidente da República. Já não basta alguém que tenha afinidades ideológicas, é preciso alguém do aparelho partidário. Porque será que isto acontece? Como se financiam as campanhas eleitorais?

Seria importante que os portugueses passassem a questionar e a querer perceber o quanto estes esquemas administrativos, de gabinetes, toldam as suas vidas diárias. Ou quais os verdadeiros motivos para a aplicação de muitas medidas, cujo o objectivo subliminar é manter em funcionamento este esquema, que tem tanto de injusto como de indecente. No fim, somos todos bons portugueses, nobre povo, solidário e compreensivo. Mas há uns que sabem como tirar partido disso e, por isso, pensam que são mais portugueses do que os outros.

post scriptum: depois de ter escrito estes textos, foram publicados outros que, de uma forma ou de outra, tocam naquilo que penso acerca da corrupção e da impunidade que grassa em Portugal e no que verti para este texto:
: Ana Gomes: “É inacreditável a complacência das autoridades portuguesas com a corrupção” – na Visão.
: A política tem de começar a ser diferente da vigarice – no Público.

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GUIMARÃES, OPINIÃO

Quadrilátero cultural: plano inclinado

helena-almeida

Há dias, já com o ano de 2015 em perspectiva, dei por mim a concluir que este ano, que está quase a terminar, fui mais vezes a Braga do que a Guimarães, para assistir a eventos culturais. Esta evidência seria pouco provável há cerca de dois ou três anos – Guimarães deixou de ser o meu destino cultural favorito.

Foi em Braga que assisti a momentos fundamentais do ano de 2015: Peixe, no GNRation; The Wooden Wolf, no Sé La Vie; Benjamin Clementine, no Theatro Circo; A Winged Victory for The Sullen, no Auditório do Conservatório de Braga da Fundação Calouste Gulbenkian, concerto integrado na programação do GNRaction; os Encontros da Imagem, em toda a cidade de Braga e no Mosteiro de Tibães.

De 2015 destaco também o ciclo de Cantautores 4820, em Fafe; a apresentação de “Cair”, de Victor Hugo Pontes, no CCVF; Angel Olsen, também no CCVF; as exposições de Helena Almeida e “Como (…) coisas que não existem – uma exposição a partir da 31.ª Bienal de São Paulo”, em Serralves, no Porto; e também o festival Vodafone Paredes de Coura, com ofertas sempre surpreendentes (pela positiva e pela negativa).

Dizendo de outro modo, Guimarães continua a ser o meu destino de eleição, por ser a minha cidade, mas o motivo pelo qual lá ia tantas vezes, sendo eu das Caldas das Taipas, parece ter deixado de existir – uma oferta cultural consistente, regular e interessante. É bom que se comece por dizer que essa oferta não desapareceu por completo, mas está longe daquilo que a cidade ofereceu há uns anos.

Em 2015 decidi comprar a assinatura do cartão Quadrilátero e por isso passei também a estar atento às programações de cidades aqui perto, optando por assistir a eventos para os quais de outro modo, provavelmente, não estaria disponível, motivando assim uma nova procura acerca de coisas que me estimulam de alguma forma.

Neste espaço concreto – o do quadrilátero urbano, Braga é de longe aquela que tem apresentado notáveis avanços, no que respeita às propostas culturais, e parece ter passado a perna a Guimarães nessa matéria – algo que era impensável há uns anos, pelo menos até à Capital Europeia da Cultura (CEC) e entre duas cidades em que tudo se mede, isto pode ser importante.

Deste modo, levantam-se algumas questões sobre o que é Guimarães a nível de promoção e oferta cultural, após o período de adaptação que se seguiu à CEC. Há um ponto de inflexão e dois motivos que parecem coexistir numa possível justificação e que têm origem precisamente em 2012 – a “bebedeira” que foi a CEC; e a publicação da Lei 50/2012.

É impossível falar do primeiro motivo sem começar pelo segundo. O Regime Jurídico da Atividade Empresarial Local e das Participações Locais apanhou a Câmara de Guimarães a jeito e deixou-a num impasse, com reflexos notórios ao nível da gestão das régie-cooperativas e em particular ao nível da cultura e da gestão dos equipamentos culturais da cidade. Eu percebo a necessidade de haver escrutínio político da gestão das empresas municiais e também percebo que toda a gestão pública tenha que ser transparente. Mas não percebo como é que um diploma legal pode pôr em causa décadas de trabalho paulatino, na área da cultura, em Guimarães.

A Capital Europeia da Cultura atirou a cidade para uma espécie de vórtice, que sugou todos os recursos e algumas vontades (que não só municipais), deixando os anos seguintes sem respostas para a tonteira que lhe antecedeu. No presente notam-se dificuldades óbvias na gestão dos equipamentos que foram criados, sem que houvesse coragem para perceber e assumir que iria ser muito difícil que a cidade tivesse escala e dimensão para os manter.

A CEC trouxe inúmeras coisas positivas – foi o culminar de um processo de construção assente em opções políticas claras; motivou agentes, de uma forma abrangente em torno de um objectivo comum; teve a capacidade de concentrar atenções na cidade (uma pequena cidade à escala Europeia), que de outra forma talvez não tivesse conseguido; teve oportunidade de potenciar a mais-valia do seu centro histórico; contribuiu decisivamente para a sua regeneração, visível por exemplo no pequeno comércio, na restauração, na hotelaria, que surgiu na cidade, atraindo não só turistas, mas criando ondas de interesse renovado em torno da cidade de Guimarães.

Mas, infelizmente, parece-me que uma das marcas que vinha sendo defendida por Guimarães – a cultura, definhou. Não em comparação com o que foi a CEC, mas com o que era a cidade antes, a nível cultural. Talvez se tivesse assumido como dado adquirido, de forma simplista, que as coisas aconteceriam naturalmente depois da CEC. Baixaram-se as guardas, apareceram obstáculos e o resultado parece-me óbvio.

Por outro lado, Braga tem conseguido trilhar um caminho que se revelou ser o mais difícil. Exemplo disto poderá ser o festival Semibreve ou os Encontros da Fotografia, que são hoje figuras incontornáveis do cenário cultural da cidade de Braga a nível europeu. Ao mesmo tempo, foram sendo criadas estruturas informais, ocupando espaços improváveis, contribuindo também para a regeneração de alguns espaços da cidade.

Curiosamente, foi no mesmo ano em que Guimarães foi Capital Europeia da Cultura, que Braga foi Capital Europeia da Juventude. Lembro-me, na altura, de haver uma certa troça bairrista por a capital de Braga não ter tido o impacto da capital de Guimarães. Isso, hoje, não deixa de ter piada. Uma das marcas da Capital Europeia da Juventude foi a criação do GNRation, um espaço multifuncional onde se agregam curadorias e se mostram projectos nas mais diversas áreas artísticas, que tem tido uma programação consistente e coerente. E o Theatro Circo, que nos últimos anos se tem assumido como passagem obrigatória no roteiro das pequenas salas de concertos e não só.

Passaram-se três anos da CEC. Houve tempo para a ressaca e foi o tempo de um novo executivo tomar posse dos destinos do município e de reagrupar as ideias. O Centro Cultural Vila Flor, que completou em 2015 dez anos, continua a ser um marco incontornável da cidade, que tem trilhado um caminho curioso nas artes performativas, o que é um sinal positivo. (Não deixa de ser também curioso que a apropriação da Plataforma das Artes e da Criatividade pelos vimaranenses continua a estar longe do que foi a apropriação do espaço do CCVF.) Em Guimarães está a ser dado um passo importantíssimo e que defendi tantas vezes, que é a descentralização da oferta cultural, à escala, pelos vários polos do território do concelho, através do programa ExcentriCidade.

Agora, é tempo de se resolverem os problemas que há para resolver. É necessário ser criativo também na forma de abordar novas disciplinas e novos formatos. Não se deverá perder o ímpeto em resolver os impasses que impedem que Guimarães brilhe da forma com que foi conhecida e reconhecida, na área da cultura.

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FRASES D'OUTROS

Frases d’Outros

aspasExiste esta dor de não pertencer a nada, a dor de viver numa sociedade civilizada mas cuja civilização não chega a todos, cuja educação, informação, respeito ou qualquer tipo de amor não chega a todos; num mundo que desvaneceu a própria identidade, a humanidade e espiritualidade e se esqueceu que toda a gente devia ter o direito de ser livre, livre de ter uma identidade e que essa identidade não devia nunca ser avaliada ou incentivada pelo número de likes” – Tiago Bettencourt, na crónica Sobre o Medo, publicada na revista Visão, de 3 de Dezembro.

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