OPINIÃO, TERRITÓRIO

A floresta tem que arder todos os anos

incendio_pedrogao13

Fotografia © João Porfírio / Observador

Parece-me haver em Portugal um certo culto pela comiseração. Os portugueses são pessoas de bom coração, incapazes de virar os olhos ao sofrimento de outras pessoas, muito menos quando se trata dos seus – neste caso seus compatriotas. Também me parece que há quem saiba disto muito bem e entenda que tudo se resolve com campanhas de solidariedade. Desconfio ainda que há interesses ocultos que impedem resolver os problemas que estão na base para que todos os anos se repitam os relatos de desastres associados aos incêndios florestais.

Pelos vistos, o Secretário de Estado da Administração Interna, Jorge Gomes, também sabe destes interesses ocultos (ele próprio já assumiu isso), que fazem com que recursos e esforços sejam canalizados mais para o combate aos incêndios florestais do que à resolução dos problemas que estão por trás das vagas anuais de incêndios. Parece mesmo que, dê por onde der, a floresta tem mesmo que arder todos os anos.

Todos os anos é a mesma coisa – espera-se por momentos como este que estamos todos a assistir em Pedrógão Grande, para encontrar responsáveis, que muitas vezes tentam fazer omeletes sem ovos. Todos nós já sabemos como é: há logo quem reclame por demissões; há também sempre muita urgência em apontar inquéritos e grupos de trabalho como capazes de resolver coisa alguma. Enquanto não tiver uma boa resposta para o facto de haver voluntários para se combaterem incêndios e não haver voluntários para limpar a floresta, é sinal de que uma espécie de mão invisível anda a tomar conta dos nossos recursos florestais.

Portugal ainda tem uma área florestal considerável, não negligenciável e não despiciente. No entanto, as estruturas de vigilância e de manutenção permanente das florestas foi desmantelada, com o desaparecimento, nomeadamente, dos serviços e dos guardas florestais. Opta-se por gastar o dinheiro no que se chama de prevenção e no combate aos incêndios, em vez de, antes disso, se canalizarem os esforços para a tal correcta gestão da floresta, que todos os anos se defende que deve ser feita.

É um argumento recorrente justificar a falta da limpeza das florestas com a alteração das práticas agropecuárias. No entanto, sabemos hoje que há formas de aproveitamento da biomassa, nomeadamente aproveitamento energético, que poderíam alimentar uma pequena indústria. Evitava-se assim o acumular do mato que cobre as florestas e que, quando seco, é o verdadeiro barril de pólvora pronto a receber uma ignição, seja ela natural ou premeditada. O resto é o que se vê.

Há uns meses, numa sessão de apresentação do Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Florestais (DECIF), na qual estive presente, o Secretário de Estado Jorge Gomes começou por dizer que o objectivo para a época de incêndios que então se preparava era evitar ao máximo a ocorrência de qualquer vítima mortal no combate a incêndios. Na mesma sessão, pediu uma mão mais pesada por parte da GNR no cumprimento na legislação em matéria de prevenção. Na altura em que proferia estas palavras, ainda antes da tão temida Fase Charlie, Jorge Gomes dava conta que, àquela altura, as marcas de número de ocorrências e de área ardida do ano anterior já tinham sido ultrapassadas.

Por também não gostar de ver o sofrimento de outras pessoas em momentos de uma crueldade extrema, por também me comover com o sofrimento de quem ficou sem nada, não me custa nada ajudar no que puder. O que me custa é assistir todos os anos à repetição do mesmo inferno, depois de se considerar estratégico o combate aos incêndios, em vez de se canalizarem melhor os recursos para que os incêndios deixem efetivamente de acontecer com esta violência.

Todos os anos serem gastos 70 milhões de euros no combate a incêndios, mais 30 milhões em acções de prevenção, cuja eficácia é todos os anos posta em causa da forma mais dolorosa para famílias inteiras e para o património florestal. Àqueles 100 milhões ainda há que somar seguramente muito mais do que isso em prejuízos e em perdas patrimoniais irreversíveis, que nenhum fundo de calamidade conseguirá compensar.

Em vez de todos os anos, à entrada do verão, haver um Dispositivo Especial de Combate a Incêndios, devemos ter um Dispositivo Especial de Protecção das Florestas no final de cada inverno. Deveríamos saber exigir que fossem repostas as estruturas de defesa, protecção e vigilância da floresta que sucessivos governos foram extinguindo – os Serviços Florestais; os Guardas Florestais. Que o dinheiro que vemos arder todos os anos seja aplicado efectivamente na defesa da nossa floresta e desta forma, na protecção das pessoas que vivem em áreas florestais.

Standard