GUIMARÃES, PENSAMENTOS

O adarve da Muralha de Guimarães: fantasias do deslumbramento

Parece que está toda a gente deslumbrada com a novíssima passagem pelo adarve de uma parte da muralha de Guimarães, que foi inaugurada domingo, 30 de junho, ainda parte das inaugurações do dia 24 de Junho. Têm certamente razão para estar aqueles que conseguem fazer o percurso a pé e ainda bem para esses.

Mas a verdade é que nem todos se poderão poderão deslumbrar da mesma forma, porque a obra acabada de inaugurar não é para todos. Famílias com carrinhos de bebés ou pessoas que desloquem em cadeiras de rodas não conseguem atravessar o passadiço de cerca de 260 metros.

É ridículo que uma obra pública, uma empreitada contratada por quase 450 mil euros (valor que exclui o projeto), não tenha o cuidado de ser inclusiva, num caso onde há condições e possibilidades técnicas para ser acessível a todos os cidadãos.

É verdade que é uma adaptação de uma estrutura pré-existente e muito antiga. São cerca de 260 metros e 15 metros de diferença de cota (não são os passadiços do Paiva).

Com um pouco de mestria e vontade, seria possível criar soluções para que fosse mais fácil para quem tem dificuldades ou limitações de mobilidade, sem prejuízo daqueles que o conseguem fazer.

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NACIONAL, OPINIÃO, TERRITÓRIO

Que ditadura é essa que quer esvaziar o Coutinho à força?

O que estão a fazer no Edifício Jardim, conhecido pelo nome de Coutinho – nome pelo qual era conhecido um mercado que ali existia anteriormente, é o pior que se pode fazer numa operação urbanística – fazer valer uma decisão técnica, à revelia das pessoas. Mesmo que seja um grupo reduzido de pessoas, a quem de repente é retirado o tapete.

Como agravante, estamos num caso em que a legitimidade da administração pública para desalojar aquelas pessoas levanta muitas dúvidas. O prédio foi construído de forma legal na primeira metade dos anos 1970 e os moradores compraram as casas onde moram. O que tem sido dúbia é a conduta da Viana Polis desde que foi criada.

Isto é uma forma totalitária de resolver as coisas. Sabemos que temos um estado tecnocrata e burocrata que corta e risca a eito, sem avaliar muito bem as consequências das decisões que toma.

Sabemos que é assim porque vamos assistindo ao desfile dos responsáveis de decisões como esta que não sabem nada do que se passava debaixo das asas dos organismos dos quais eram ou são responsáveis. A prepotência autoritária do estado é inadmissível em democracia.

Eu percebo e até concordo com a decisão de demolir o prédio Coutinho e não é só com base em critérios estéticos. A construção viola uma série de boas regras urbanas básicas – por exemplo de salubridade, na medida em que o prédio deixa sem exposição solar o casario a norte. Do que discordo é a forma prepotente como este processo está a ser conduzido, porque também não percebo onde está a pressa de demolir o edifício.

Quem ocupa ainda o edifício são pessoas maioritariamente idosas. Reformados que deverão estar num período em que têm o direito de gozar as suas vidas sem preocupações porque, provavelmente estiveram até há pouco tempo a trabalhar para, entre outras coisas, pagar o crédito bancário que contraíram para a aquisição de uma parcela naquele prédio.

Mesmo que haja indemnizações ou contrapartidas, quem não quer sair da sua casa tem esse direito porque, desde logo, o dinheiro não significa tudo.

Se precisam de demolir o prédio e se há pessoas que só o querem deixar quando morrerem, o mínimo que a administração pública tem a fazer é esperar que o prédio se esvazie naturalmente e impedindo que a propriedade transite para outras pessoas.

Fazê-lo de forma ditatorial como parece ser o caso, é um exemplo da ditadura de que o país já se devia ter visto livre. Além disso, é um mau exemplo que contraria a ideia de que o Estado só serve para atrapalhar a vidas das pessoas. O que é grave, por acreditar que não deve ser assim.

É muito reduzida a diferença entre aqueles que permitem que pessoas morram afogadas ao atravessar fronteiras e aqueles que expulsam pessoas das suas próprias casas contra a sua vontade para satisfazer a vontade de tecnocratas vazios de razão e moral.

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NACIONAL, OPINIÃO

O dia e o tempo de Portugal e o discurso de João Miguel Tavares

Não tenho automaticamente de discordar de alguém só por ser de direita ou por ser de esquerda. Tem-se caído muito facilmente na tentação de etiquetar de populista alguém que ousa dizer aquilo que toda gente ou a esmagadora maioria pensa.

Enquanto se apontam dedos acusatórios e se faz a aferição sobre se se trata de populismo ou não, as posições extremadas inflamam-se porque aquilo em que toda a gente pensa foi desconsiderado, ridicularizado, desvalorizado.

É curioso perceber que há um padrão entre aqueles que tenho lido a debater, esmiuçar e desvalorizar o discurso de João Miguel Tavares. São tipicamente pessoas que, além de serem de esquerda, são privilegiados – são pessoas urbanas, que têm trabalho e oportunidades e que vivem acima da média. Provavelmente já foram favorecido aqui ali, mas fazer de conta que esses “pecadinhos” não têm importância.

Li mais que uma vez o discurso de João Miguel Tavares do dia 10 de junho. Eu conheço as ideias que ele normalmente defende que se associam ao que se tem chamado de “ser de direita”. Mas ao ouvi-lo e lê-lo pareceu-me que teve a inteligência suficiente para se manter neutro nesse gume que divide o que se diz ser de direita e o que se diz ser de esquerda.

Ele disse aquilo que eu penso muitas vezes e tenho a certeza que o que muita gente em Portugal pensa. Não é por João Miguel Tavares defender nos seus comentários e crónicas alguns das ideias de ideologias de direita que vou automaticamente concordar ou discordar dele.

Limitou-se a apontar os podres sem arriscar soluções. É verdade. Mas não é dele a responsabilidade de o fazer. Quem tem de apontar as melhores soluções para os problemas do país são os representantes políticos e partidários, que se comprometem candidatando-se e que são eleitos pelo povo.

O povo português, tirando os espasmos causados pelo futebol ou pelas greves (que correspondem muitas das vezes a expectativas que são legítimas), o povo português anda muito calado e demasiado sereno. Temo que estejam a engolir em seco durante demasiado tempo, ao mesmo tempo que vão extremando os seus pensamentos sobre a forma como o país é gerido pelas tais elites de que fala João Miguel Tavares.

Temo que um dia lhes salte a tampa e que expressem isso não só a incendiar ruas, mas a votar em quem não devem. Ou seja, em quem diz o que diz para agradar a uma larga maioria e que quer chegar ao poder a qualquer custo – esses sim, populistas.

Tirando aqueles que souberem como “orientar” a vida com o 25 de abril, não tenho dúvidas que para aqueles que revolucionaram o país e transformaram a ditadura em liberdade o sonho se vai desvanecendo. Também o sonho europeu se vai desvanecendo à medida que os valores da construção europeia se vão correnpendo nas suas fundações.

Qual é mesmo a utopia que devemos seguir hoje como portugueses?

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PENSAMENTOS

Haja coerência

A notícia da morte de Agustina Bessa-Luís aos 96 surgiu hoje nos jornais. O momento servirá para sublinha as indiscutíveis qualidades da escritora portuguesa, mas também ver se se vendem mais alguns livros e ainda para alimentar aquela dose de comoção de que os portugueses tanto gostam.

Há coisa de duas semanas atrás, o paisagista Gonçalo Ribeiro Telles, uma das pessoas mais brilhantes na sua área de saber, que este país continua a ignorar e que continua vivo, cumpriu 97 anos.

Quando ele morrer talvez seja o melhor da sua arte, mas enquanto isso, continua a ser despercebido, por conveniência dos interesses alarves, das corporações que tomam conta de Portugal e que têm destruído a sua paisagem.

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FRASES D'OUTROS

Frases d’Outros

aspasPara o Estado, seja governo o PS ou o PSD, os cidadãos não passam de números com nove algarismos destinados a pagar a sua máquina. Mais do que um mecanismo de redistribuição e de justiça social, o fisco português assume a pose do xerife de Nothingham, mais preocupado com a extorsão do que com o cumprimento de deveres. A sua eficácia foi útil quando a troika aterrou na Portela e foi necessário aumentar receitas e continua a ser útil para manter a carga fiscal nos 35,4% do PIB.

[…] O Estado que é tão complacente com as dívidas fiscais dos mais poderosos ao ponto de decretar a eito perdões e regularizações amigáveis não pode ser assim implacável perante um cidadão comum” – Editorial de Manuel Carvalho, no Público.

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NACIONAL

variacao-preco-gasolina-por-litro

Este gráfico representa a variação do preço da gasolina que tenho pago desde Abril de 2015. Portanto, a fonte não é mais do que a minha carteira. Aqueles mínimos são as vezes que vou a Espanha e abasteço lá.

Esses picos acompaham a tendência do preço praticado em Portugal. Imagine-se uma linha que une os pontos mais a cima e aqueles mínimos. Resultam duas linhas mais ou menos paralelas.

A diferença entre a linha de cima e a debaixo que conseguimos imaginar é sensivelmente aquilo que pagamos em impostos ao Estado português.

Da leitura do gráfico percebem-se bem as vezes que fui a Espanha nos últimos três anos. O que me leva a concluir que talvez tenha de lá ir mais vezes.

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JORNALISMO, PENSAMENTOS

Da imparcialidade

Aquelas pessoas que se metem na política partidária e ficam com metade do cérebro congelado, passando a ver só a metade da realidade que lhes interessa e que ainda dão lições de imparcialidade.

Entre os que escrevem em jornais e têm noção do que é bom jornalismo e procuram pô-lo em prática, deverá a haver uma procura sistemática e incessante pela deontologia e pela imparcialidade.

A imparcialidade é algo que se deve defender e perseguir, mas não tenhamos ilusões, cada um tem a sua. Por outro lado, quem defende uma facção e segue uma tendência, sendo tendencioso, não tem qualquer propriedade para avaliar a imparcialidade.

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